domingo, fevereiro 27, 2005

ETERNOS SILÊNCIOS

Há silêncios sem fim em toda a vida humana
silêncios estes que pr' a tudo são resposta
e o primeiro de todos quando a morte arrosta
sem qu' ela explique se é eterna ou profana...

Esta é a mais rude e mais ultramundana
de todas as verdades que ao homem desgosta
pois a vida que tem sabe que lhe é imposta
e a resposta é ignorância triste e desumana.

Qu’ importa se há ou não aquela eterna vida
se em cada hora e território há sempre alguém
qu’ a esse sonho alimenta e lhe dá guarida ?

E entre o sonho e o nada o que é que nos convém ?
Esfarrapar o nada e ao sonho dar mais vida
qu’ os eternos silêncios não medram ninguém !



Frassino Machado
In ODISSEIA DA ALMA

LAUREADOS DO OLIMPO - JOÃO DE DEUS

Nasceu em São Bartolomeu de Messines em 1830 e morreu em Lisboa em 1896.
Autor de "Campo de Flores", onde está reunida a sua Poesia, de grande beleza e sabor popular e satírico. Grande pedagogo, foi também autor da famosa "Cartilha Maternal" que serviu de modelo cultural, durante décadas, para o aprendizado das primeiras letras. No final da vida, os estudantes de Coimbra promoveram-lhe, em Lisboa, uma homenagem nacional, a que João de Deus, de uma janela da sua casa, à Estrela, respondeu em verso de improviso:
"Estas honras e este culto
bem se podiam prestar
a homens de grande vulto,
mas a mim? Poeta inculto,
espontâneo, popular?
É deveras singular..."

LÁGRIMA CELESTE

Lágrima celeste,
pérola do mar,
tu que me fizeste
para me encantar!

Ah! se tu não fosses
lágrima do céu,
lágrimas tão doces
não chorava eu.

Se eu nunca te visse,
bonina do vale,
talvez não sentisse
nunca amor igual.

Pomba debandada,
que é dos filhos teus?
Luz da madrugada,
luz dos olhos meus!

Meu suspiro eterno,
meu eterno amor,
de um olhar mais terno
que o abrir da flor.

Quando o néctar chora
que se lhe introduz
ao romper da aurora
e ao raiar da luz!

Esta voz te enleve,
este adeus lá soe,
o Senhor to leve
e Deus te abençoe.

O Senhor te diga
se te adoro ou não,
minha doce amiga
do meu coração!

Se de ti me esqueço
ou já me esqueci,
ou se mais lhe peço
do que ver-te a ti!

A ti, que amo tanto
como a flor a luz,
como a ave o canto,
e o Cordeiro a Cruz;

A campa o cipreste,
a rola o seu par,
lágrima celeste,
pérola do mar.

Lágrima celeste,
pérola do mar,
tu que me fizeste
para me encantar?


João de Deus
In CAMPO DE FLORES




sábado, fevereiro 26, 2005

A LÍNGUA DE DEUS

Por
Frei Adelino Pereira


Falem-me como falam pelas ruas
pelos hipermercados à maneira
como no estádio ou como numa feira
como quando se fala de almas nuas

Falem-me a língua dos cafés das duas
com o sotaque duma cavaqueira
como crianças a jogar numa eira
como quem diz loucuras para as luas

Falem-me mesmo sem qualquer gramática
falem-me como um rio ou cascata
como a dança do vento sobre o mar

Falem-me assim de Deus de par em par
mesmo numa linguagem de sucata
porque a língua de Deus é a mais prática !


Adelino Pereira, O. F. M.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

O MESTRE PARTIU A OBRA FICOU

Partiste sem voltar, meu fiel amigo,
e não me informaste que partias
embora eu soubesse que sofrias
e agora sofro eu, como castigo...

Partiste, mestre, p' ra melhor abrigo,
tu que meus pobres versos acolhias,
e com prazer mil vezes os relias
p' ra eu os refazer melhor contigo.

Construí há bem pouco o meu Parnaso
tencionando o teu nome lá constar
nunca pensando neste triste acaso...

A terra que ajudaste a preparar
dará sua colheita em útil prazo
e tu no teu Olimpo hás-de julgar !


Frassino Machado
In ODISSEIA DA ALMA

O POETA SONHADOR

É admirável ser Poeta,
mas ser Poeta a valer,
a Poesia é a minha meta
pois um Poeta hei-de ser.

Toda a Natureza é bela,
mesmo quando é discreta,
ao dar a vida por ela
é admirável ser Poeta.

Ser Poeta é uma aventura
que se tem para viver
com beleza e com ternura
mas ser Poeta a valer.

Todo o agir é uma arte
se a intenção é correcta
eu direi por toda a parte
a Poesia é a minha meta.

O Poeta é um sonhador
com sonho d’ enternecer,
sonharei pr’ além da dor
pois um Poeta hei-de ser !


Frassino Machado
In ODISSEIA DA ALMA

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

LAUREADOS DO OLIMPO - GARCILASO DE LA VEGA

Entre 1498 e 1501: Nasce em Toledo.
1512: Morte do seu pai.
1517: Assiste em Valladolid à entrada oficial de Carlos V em Espanha. 1519: É condenado a três meses de desterro e a pagar 4.000 maravédis de multa pela sua participação numa desordem no Hospital de Núncio, em Toledo.
1520: É nomeado secretário do Imperador.
1520-1521: Nasce o seu primogénito, fruto de su relação com sua amante Dona Guiomar Carrillo.
1522: Viaja até Vitória para reclamar seus pagamentos atrasados. Acompanha a Corte em Valladolid, Burgos, Logroño, Pamplona y Fuenterrabía.
1523: É nomeado cavaleiro da Ordem de Santiago e gentilhomem da Casa de Borgonha. Participa na campanha contra Navarra e Fuenterrabía.
1524: Visita em Portugal seu irmão Pedro Laso. Provavelmente, conhece a Isabel Freire.
1525: Casa-se com Dona Helena de Zúñiga, dama de Dona Leonor de Áustria. É nomeado regedor de Toledo.
1526: Assiste em Sevilla à boda de Carlos V com Isabel de Portugal.
1526-1527: Nasce seu segundo filho (o primeiro de sua mulher Dona Helena de Zúñiga).
1527: Parte com a Corte do Imperador para Valladolid, onde se celebram as Cortes.
1528: Prolongada estadia de Carlos V em Toledo, onde se reunem as Cortes. Garcilaso compra em Toledo umas casas para sua residência. Morre seu irmão Fernando no assalto francês a Nápoles. Morre Baltasar de Castiglione em Toledo. Nasce seu terceiro filho, Iñigo de Zúñiga, que morrerá 27 anos depois lutando contra os franceses em Ulpiano.
1529: Redige o seu testamento em Barcelona, poco antes de embarcar com a Corte rumo a Itàlia. Nasce seu 4º filho, Pedro de Guzmán, que aos 14 anos professará no convento de São Pedro Mártir, em Toledo.
1530: Assiste à coroação de Carlos V em Bolonha como Imperador dos Romanos. No seu regresso a Espanha é enviado pela Imperatriz Isabel em missão diplomática à corte de França.
1532: Parte com D. Fernando Alvarez de Toledo para Alemanha. Nasce seu 5º filho, Sancha. É desterrado três meses para uma ilha do Danúbio por ter estado na boda de um sobrinho, não autorizada pela Emperatriz. O vice rei de Nápoles, Dom Pedro de Toledo, contrata-o como lugartenente da companhia de pessoal de armas.
1533: Viaja até Espanha com uma mensagem do Vice rei para Carlos V. Intervem em "la postrera lima" colaborando na tradução que faz Juan Boscán do "Il Cortegiano", de Baltasar de Castiglione.
1534: Nasce seu 6º filho, Francisco de la Vega, que morrirá ainda criança. Morre Isabel Freire de parto. Viaja para Espanha em missão do Vice rei de Nápoles. É nomeado alcaide de Ríjoles.
1535: Renuncia à alcaideria de Ríjoles. Participa na expedição a Túnez , contra Barbarroja.
1536: Campanha da Provença. É ferido em Le Muy (19 de setembro) e morre em Niza, vinte e cinco dias depois (14 de Outubro). Em 1538 sua mulher faz transladar os restos mortais de Garcilaso para Toledo, sendo sepultado na Capela do Rosário da Igreja de São Pedro Mártir).


SONETO VIII

De aquella vista pura y excelente

salen espirtus vivos y encendidos,
y siendo por mis ojos recebidos,
me pasan hasta donde el mal se siente;

éntranse en el camino fácilmente

por do los mios, de tal calor movidos,
salen fuera de mí como perdidos,
llamados d’aquel bien que ’stá presente.

Ausente, en la memoria la imagino;

mis espirtus, pensando que la vían,
se mueven y se encienden sin medida;

mas no hallando fácil el camino,

que los suyos entrando derretían,
revientan por salir do no hay salida.


Garcilaso de la Veja
In SONETOS

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

POETAS CONSAGRADOS - ANTERO DE QUENTAL

SONHAR A VIDA INTEIRA


Num sonho todo feito de incerteza,
de noturna e indizível ansiedade,
é que eu vi teu olhar de piedade,
e, mais que piedade, de tristeza.

Não era o vulgar brilho da beleza,
nem o ardor banal da mocidade;
era outro brilho, era outra suavidade,
que até nem sei se as há na natureza.

Um místico sofrer; uma ventura,
feita só do perdão, só da ternura
e da paz da nossa hora derradeira.

Oh! Visão, visão triste e piedosa,
fita-me assim calada, assim chorosa,
e deixa-me sonhar a vida inteira.


Antero de Quental
In PRIMAVERAS ROMÂNTICAS

PROCURA-SE UM AMIGO

Procura-se um amigo
que o seja de verdade
pois não terá sentido
se o for só por metade.

No mundo de ilusão
já nem sei o que digo
ninguém tem coração:
procura-se um amigo.

Por voltas que se dê,
seja cedo ou tarde,
amigo não se vê
que o seja de verdade.

Todo o sonho de ‘sprança
para ser desmentido
só com paz se alcança
pois não terá sentido.

Ser feliz sem razão
não dá com amizade
pois amigo é ilusão
se o for só por metade.


Frassino Machado
In OS FILHOS DA ESPERANÇA

O DIA MUNDIAL DO POETA

Cada minuto, cada hora, cada dia
são sempre para mim muito diversos
mas sempre iguais na arte dos meus versos
pedaços de meu corpo em traços de energia...

Cada hora, cada dia e cada semana
trespassam no meu ser os sentimentos
qual tela de pintor seus regimentos
pintando um universo em forma d’alma humana.

Cada dia, cada semana e cada mês
é sempre tempo de escrever poemas,
fazendo sol, ou chuva, frio ou calor...

Cada vida a sofrer e amar talvez
para escrever poesia há sempre muitos temas
e em cada um deles mora algum valor !


Frassino Machado
In RUDIMENTOS

POESIA AO VENTO

Poesia ao vento meu pensamento
e sentimento de cá de dentro.

Poesia à solta nada de escolta
que fará falta sem trazer volta.

Poema vadio rude feitio
no fim do estio fatal desvio.

Poema sem alma me leva a palma
mesmo p’ la rama tira-me a calma.

Versos travessos às vezes perversos
sempre dispersos e controversos.

Versos rebeldes nada de estimas
sem ser humildes com fracas rimas.

Liras deliras feitas às tiras
filhas das iras de poucas miras.

Liras moções e aos tropeções
entre nevões e mil emoções.

Trovas mais trovas feitas sem provas
e sem renovas sentidas novas.

Trovas final e com vendaval
meu bem, meu mal, será natural !



Frassino Machado
In RUDIMENTOS

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

PERENE ODIRONIA

Até os deuses, mais que os humanos,
tiveram os seus óbis hilariantes
que o serem do Olimpo habitantes
não os faria a si cantar de ufanos !

Se todos nos lembrarmos dos tiranos
e dos que pelo mundo são farsantes,
os que praticam actos humilhantes
e gozam desta vida muitos anos,

O que farão os pobres pés-descalços
que cada dia têm só percalços
e nada do que é seu deixam d’ herança?

Deixar-se-ão morrer neste destino ?
Não. Apelam ao pobre do seu tino
e riem-se dos ricos em festança !



Frassino Machado
In RUDIMENTOS

domingo, fevereiro 13, 2005

POETAS CONSAGRADOS - TEIXEIRA DE PASCOAES

A MINHA MUSA



Senhora da manhã vitoriosa
e também do Crepúsculo vencido!
Ó Senhora da Noite misteriosa,
pertence-te este livro comovido;

É teu, doce mulher religiosa;
ó Dor e Amor! Ó Sol e Luar dorido!
Corpo que é alma escrava e dolorosa,
Alma que é corpo livre e redimido.

Mulher perfeita em sonho e realidade;
aparição divina da Saudade ...
Ó Eva toda em flor, e deslumbrada!


Casamento da Lágrima e do Riso;
O céu e a terra, o inferno e o paraíso;
Beijo rezado e Oração beijada ...


Teixeira de Pascoaes
In SENHORA DA NOITE

POETAS CONSAGRADOS - ANTÓNIO GEDEÃO

A POESIA É O VERBO

Por
António Gedeão

Quem me dera a mim cantar
como devia regar:
alma nua, toda nua
como a nudez dos cordeiros
ou como a Verdade e o Vento
alma em chamas, toda em chamas
como um incêndio invisível;
mãos erguidas, sem ninguém
que lhes adivinhe os gestos;
sangue das veias correndo
para o fundo dos abismos;
os olhos presos dos astros
sem que os astros o suponham;
e os pés deixando na terra
vestígios indecifráveis;
cantar adentro de mim
como se o canto não fosse
senão pureza e silêncio,
para que acima das coisas
só ficasse a palpitar
o coração do mistério.
E, dominando as palavras,
mais do que a lua as marés,
apenas se ouvisse o Verbo,
que está sempre no princípio
e sempre no fim de tudo.

Porque a poesia é só Ele !


António Gedeão
In “Movimento Perpétuo”

sábado, fevereiro 12, 2005

MAGIA DO PARNASO


O
céu
o Éden,
no sentir
do coração,
mente revelada
corpo transformado,
minha glória e redenção
meu sonho sempre renascido,
p’la montanha mágica escalado,
o meu corpo fez-se humus revoltado!
O
meu
pulsar
sonhador,
com alma pura,
minha desventura
em tristes ais pungentes,
meus versos e meus poemas
tangendo minha cítara ao luar,
meu canto agigantou-se pela dor,
na seara transformada em paz e amor!


Frassino Machado
In“Odisseia da Alma

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

O CANTO DO PARNASO II

Este é o precioso Canto
testemunho de verdade
que da alma sai com 'spanto,
com perfume e qualidade.

Cada dia e sem quebranto
e co' a maior suavidade
vai entrando cada canto,
cada verso em equidade.

A Poesia é mal amada
e por muitos desprezada
neste mundo feito a prazo...

Partindo desta evidência
construamos com urgência
este Canto do Parnaso !


Frassino Machado
In AS MINHAS ANDANÇAS

O CANTO DO PARNASO I

O meu fado me inspirou
nome raro sem ter caso
entre outros me lembrou
ser “O Canto do Parnaso”.

Minha fadada poetisa
minha lira dedilhada
de ti meu canto precisa
e de uma Musa encantada.

Tu és de Arte princezinha
saber de exp’riência feito
meu Parnaso sem rainha
será Projecto imperfeito.

A poesia é feita em verso
a Arte com emoção
meu canto será diverso
nascerá do coração ...

Todo o mundo que eu quiser
no Parnaso há-de entrar
mas só entra quem souber
tanger lira e bem cantar !


Frassino Machado
in"Lira Bem Temperada"

AOS POETAS

« DIA INTERNACIONAL DA POESIA
E DOS POETAS ! »

POETAS, SERES CRIADORES,
FANTÁSTICOS E SONHADORES,
EMOTIVOS E ILUMINADOS,
DÍNAMOS DA PAIXÃO E DA LIBERDADE.
POETAS DA IMENSIDÃO DO COSMOS
E DA SINGELEZA DA ALMA POETAS...
SOIS FARÓIS !
AOS POETAS E POETISAS DO MUNDO
ESTA MINHA GRATIDÃO COM ESPANTO,
GRANDEZA E SOLIDARIEDADE !

Frassino Machado
In AS MINHAS ANDANÇAS